sexta-feira, setembro 26, 2014

O motim de Hollister 1947




O motim de Hollister foi um acontecimento que mudou o curso da história do motociclismo na América, e de certa forma também, em todo o mundo "motorizado". Ocorreu no feriado de 4 de Julho do ano de 1947, que coincidia com uma sexta-feira e que proporcionava um fim-de-semana alargado. Parecia apenas um ameno fim-de-semana de verão, mas a ele se ficou a dever o termo “biker”, a sigla de 1% e um filme protagonizado por Marlon Brando...

Nesse tempo, por toda a América, organizavam-se os chamados “Gypsy Tours”, fomentados pela A.M.A. – American Motorcycles Association, apoiados pelos fabricantes de motos e protagonizados pelos clubes de motociclistas. O formato era simples: de todo o país partiam grupos de motos para uma determinada cidade onde iria decorrer o evento. No caminho, e durante a estadia, os participantes acampavam em tendas e cozinhavam em fogueiras, tal como os ciganos.

No caso concreto deste evento, organizado pelos Salinas Ramblers, o destino era a Califórnia, mais concretamente a pacata cidade de Hollister. Tudo começou enquanto as corridas de "dirt track" tinham lugar na pista de Bolado, às portas da cidade, para onde também estava agendada uma prova de “Hillclimbing”.

Uma considerável parte dos participantes eram veteranos da II Grande Guerra que encontravam nas suas motos e nos seus grupos uma razão de ser compensatória dos traumas de guerra e da indiferença com que, depois de terem servido a nação, foram recebidos pelos seus conterrâneos.

Estavam organizados em bem conhecidos grupos como os “Top Hatters” e os "POBOB - Pissed off bastards of Bloomington" (cujo membro Otto Frieddli viria mais tarde a ser o fundador dos Hells Angels Motorcycle Club), ou ainda aqueles que foram os principais protagonistas de Hollister: os "Boozefighters", um grupo fundado em 1946, constituído sobretudo por veteranos da II GG que já tinham “chapters” em Los Angeles, San Pedro e San Francisco, liderados por William “Wino Willie” Forkener que tinha sido expulso do 13 Rebels Motorcycle Club devido ao seu elevado consumo de álcool. De qualquer forma, o grupo era bastante unido, e mantém-se ativo até aos dias de hoje.

Acontece que depois de muita bebida, muita condução inconsciente e corridas de arranque na principal rua da cidade, os ânimos foram aquecendo, até que alguns dos primeiros desacatos tiveram lugar no “Johnny’s”, um bar que ainda é um marco na cidade e cujo lema atual é: “onde tudo começou”. Alguns motociclistas desataram a entrar nesse, e noutros bares, montados nas suas motos.
Não há muitos pormenores do que realmente aconteceu depois disso em Hollister e relatos de testemunhas garantem que basicamente não se terá passado nada de verdadeiramente grave para além de enorme quantidade de lixo e garrafas vazias que ficaram pelas ruas e jardins da cidade. Há relatos de acidentes, mas nenhum terá sido grave e a polícia, que teve que pedir reforços provavelmente mais por precaução ou medo do que por necessidade, terá prendido alguns dos participantes mais entusiasmados. Mas as acusações não passaram de embriaguez e desacatos e nenhum motociclista chegou a ser julgado. O que ficou para a história, no entanto, foi o empolgamento da situação, despoletado pelos media, cujas parangonas mencionavam a destruição de uma cidade causada pelos motociclistas, durante um fim-de-semana prolongado.



Terá sido um tal Barney Peterson, fotógrafo, que alegadamente terá “montado” uma foto controversa (parece que o rapaz sentado na moto (foto acima) completamente embriagado, nem sequer era motociclista, e que a moto terá sido empurrada para o local onde estava um monte de garrafas vazias...) que foi publicada semanas mais tarde na conceituada Revista Life, com o seguinte comentário: “Cyclist’s Holiday: He and his friends terrorize a town.”(Feriado motociclista: Ele e seus amigos aterrorizaram a cidade)...



O sensacionalismo mediático transformou o incidente de Hollister numa verdadeira ameaça e num espectáculo assustador e degradante de força bruta e álcool, que se transformaram num estereótipo do motociclismo.

A A.M.A. terá então emitido um comunicado, assegurando que 99% dos motociclistas eram cumpridores da lei, e que não seria 1% de motociclistas “fora da lei” que ia manchar a imagem de uma crescente geração de motociclistas bem intencionados. Terá sido esta afirmação que está na origem do “1%” exibido atualmente nos emblemas dos coletes dos chamados “Oultlaw Clubs”.

Em 1951, a Revista Harper’s publicou uma história denominada “Raid Ciclista” de um escritor de nome Frank Rooney, que se terá inspirado nos eventos de Hollister em 1947. A sua história ter-se-à posteriormente convertido no filme “The Wild One” e ficou para a memória de todos a imagem de Marlon Brando, aos comandos de uma moto que provavelmente por mero acaso não era americana, com o seu boné e blusão negro e um ar ameaçador.


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